Ozempic, Mounjaro, e Canetas Emagrecedoras: o que ninguém te explica sobre o tratamento

Nos últimos anos, medicamentos como Ozempic® (semaglutida), Wegovy® (semaglutida) e Mounjaro® (tirzepatida) transformaram o tratamento da obesidade e do excesso de peso. E isso é uma ótima notícia.

Pela primeira vez, temos recursos farmacológicos capazes de atuar diretamente em mecanismos relacionados à fome, à saciedade e ao comportamento alimentar, ajudando muitas pessoas que antes enfrentavam enormes dificuldades para emagrecer ou manter o peso.

Por isso, quero começar deixando uma coisa clara: Eu não sou contra as canetas emagrecedoras. Muito pelo contrário. Para algumas pessoas que buscam médicos que trabalham com emagrecimento, elas podem ser uma ferramenta extremamente importante dentro do tratamento.

Vamos destrichar melhor os tópicos da imagem a seguir:

E aqui vamos entender primeiro essas terminologias que podem parecer complicadas de entender e diferenciar. Os medicamentos para obesidade evoluíram bastante nos últimos anos. A semaglutida (Ozempic®, Wegovy® e Ozivy®) atua principalmente em mecanismos relacionados à fome e à saciedade. Já a tirzepatida (Mounjaro®) combina a ação em dois receptores diferentes, ampliando os efeitos sobre o controle do apetite e do metabolismo. A próxima geração dessas terapias é representada pela retatrutida, que atua em três receptores e parece influenciar não apenas a fome, mas também o gasto energético. Vale lembrar que ela ainda não está sendo comercializada no Brasil e os produtos que estão sendo comercializados atualmente (junho de 2026) são de origem ilegal.

Apesar das diferenças entre eles, existe algo em comum: são ferramentas terapêuticas que podem ajudar muito algumas pessoas, mas que precisam estar inseridas em um plano de cuidado mais amplo. O medicamento pode facilitar o processo, mas continua sendo importante entender qual problema estamos tentando resolver e como construir resultados que possam ser sustentados a longo prazo.


Mas existe uma pergunta que, na minha opinião, é ainda mais importante do que:

“Qual é a melhor caneta para emagrecer rápido?”

Ou:

“Será que eu preciso de Ozempic ou Mounjaro?”

A pergunta é:

“O que está fazendo você ganhar peso hoje?” e indo além, o que fez você ganhar peso ao longo dos anos.

Para resolver o problema é preciso entender o que te fez chegar nele.

Pessoas diferentes podem chegar ao mesmo peso por motivos completamente diferentes. Algumas sentem fome o tempo inteiro. Outras pensam em comida o dia todo. Algumas descontam o estresse na comida, enquanto outras usam a alimentação para relaxar, se recompensar ou simplesmente conseguir lidar com uma rotina difícil.

Por isso, antes de pensar em qual medicamento faz mais sentido, eu gosto de entender qual é exatamente o problema que estamos tentando resolver. Dependendo do caso, a principal dificuldade pode estar na fome, na percepção da saciedade, na ansiedade, no sono, na rotina ou em uma combinação de vários fatores ao mesmo tempo.

E quando não entendemos claramente qual é o problema, é muito comum buscar soluções rápidas que parecem fazer sentido, mas que acabam trazendo novos desafios. É o caso de quem decide usar a medicação apenas por algumas semanas para emagrecer rápido, tenta espaçar aplicações por conta própria, pega o medicamento com conhecidos, ajusta doses sem orientação ou utiliza o medicamento de uma forma que não faz sentido para os objetivos do tratamento.

Isso não significa que não existam estratégias individualizadas. Pelo contrário. Mas existe uma grande diferença entre um manejo construído dentro de um plano terapêutico e decisões tomadas apenas com base na tentativa e erro.

É justamente por isso que o meu trabalho não começa escolhendo uma dose ou definindo quantas semanas o medicamento será utilizado. Meu trabalho começa entendendo o que levou aquela pessoa até ali e quais ferramentas realmente fazem sentido para o caso dela.

Já tive casos de entrar em contato com a endocrinologista responsável pelo acompanhamento e dividir os bastidores dos atendimento e chegarmos juntas a conclusão que olhar para ansiedade do paciente naturalmente levaria a um déficit calórico e a intervenção continuar sendo medicamentosa, porém mais direcionada para o que está causando a busca pela comida. 

E é bem possível que o tratamento contemple uma grande combinação de tudo isso. Por isso, meu trabalho na consulta nutricional nunca começa escolhendo um medicamento ou focando apenas em como queimar gordura. Meu trabalho começa tentando entender a função que a comida exerce na sua vida.

Quem costuma se beneficiar mais dessas medicações?

Embora cada caso precise ser avaliado individualmente por um médico, existem alguns perfis que frequentemente apresentam excelentes resultados.

  • Pessoas com obesidade ou excesso de peso associado a alterações metabólicas.
  • Pessoas com resistência à insulina e diabetes tipo 2.
  • Pessoas que sentem fome com muita frequência, mesmo após refeições adequadas.
  • Pessoas que relatam pensar em comida o tempo inteiro e se sentem exaustas por estarem constantemente negociando consigo mesmas o que vão ou não comer.

Nesses casos, o medicamento pode reduzir um ruído que acompanha a pessoa durante anos. Muitos pacientes descrevem a sensação como se alguém tivesse finalmente diminuído o volume de um rádio que nunca desligava.

Mas existe um detalhe importante. Nem toda dificuldade alimentar nasce da fome. E é justamente por isso que uma boa avaliação continua sendo indispensável.

O que acontece quando usamos as canetas emagrecedoras?

Os análogos de GLP-1 costumam reduzir significativamente o apetite e aumentar a sensação de saciedade. E muitas pessoas, que sofrem com excesso de peso, isso representa um enorme alívio. Aquela vontade constante de comer diminui. A comida deixa de ocupar tanto espaço nos pensamentos e as escolhas alimentares parecem mais fáceis.

Mas existe um detalhe importante.

Quando a comida deixa de ser o recurso principal para lidar com emoções e desconfortos, os problemas que antes eram parcialmente anestesiados pela alimentação continuam existindo.

A diferença é que temporariamente a comida perde a função de resolver.

E é exatamente aí que surge uma grande oportunidade terapêutica de desenvolver novos recursos para onde a comida estava preenchendo enquanto o remédio permite que isso seja implementado sem tanto sofrimento. 

Durante o tratamento para perda de peso sem o remédio também  conseguimos observar com até com mais clareza:

  • o que gera ansiedade;
  • o que gera estresse;
  • quais situações costumam desencadear exageros;
  • quais recursos emocionais ainda precisam ser desenvolvidos.

Construir novas estratégias costuma ser muito mais difícil quando a pessoa sente fome intensa, tem pouca percepção de saciedade, apresenta resistência à insulina ou pensa em comida o tempo todo.

É justamente aí que surge uma grande oportunidade terapêutica. Com a redução da fome e dos impulsos alimentares, muitas pessoas conseguem desenvolver novos recursos emocionais e comportamentais sem o sofrimento que antes dificultava esse processo.

Quem costuma se frustrar com as canetas emagrecedoras?

Curiosamente, algumas das maiores frustrações que vejo não acontecem porque o medicamento causou o reganho de peso. Elas acontecem porque as expectativas estavam desalinhadas.

  • Costumam se frustrar mais as pessoas que acreditam que o medicamento vai resolver sozinho uma rotina desorganizada.
  • Quem espera emagrecer sem precisar desenvolver novos hábitos.
  • Quem utiliza a comida principalmente como forma de lidar com estresse, ansiedade ou exaustão emocional, mas não trabalha essas questões em paralelo.
  • E também quem acredita que o objetivo é apenas perder peso o mais rápido possível.

Emagrecer e construir um resultado sustentável são coisas diferentes.

O medicamento pode facilitar o processo.

Mas ele não substitui habilidades que precisarão existir quando a medicação não estiver mais presente.

A comida raramente é apenas comida. Embora muita gente acredite que come apenas por fome, na prática ela costuma desempenhar vários papéis ao mesmo tempo. Em um dia, ela pode ser uma forma de aliviar o estresse do trabalho. Em outro, pode funcionar como recompensa depois de um dia difícil, uma maneira de socializar com amigos ou simplesmente um momento de prazer.

Algumas pessoas também percebem que comem mais quando estão ansiosas, entediadas, frustradas ou cansadas. E normalmente não existe apenas uma função. A mesma pessoa pode usar a comida para relaxar, comemorar, lidar com emoções difíceis e compensar uma noite mal dormida, tudo na mesma semana. É justamente essa combinação de fatores que torna o comportamento alimentar tão complexo e faz com que emagrecer seja muito mais do que apenas contar calorias ou controlar porções.

Quando olhamos apenas para a balança, corremos o risco de ignorar uma parte importante da história.

Como funciona o meu acompanhamento nutricional durante o uso de Ozempic e Mounjaro?

Muitas pessoas imaginam que o acompanhamento nutricional durante o uso dessas medicações consiste apenas em receber um cardápio. Na prática, costuma ser muito mais do que isso.

E a realidade é que cada pessoa vai precisar de um acompanhamento diferente e o que muda?

  • Algumas pessoas precisam de ajuda para atingir a meta de proteínas, outras precisam aprender a lidar com a ausência de fome.
  • Tem também quem chega ao consultório tentando entender como lidar com os efeitos colaterais dos medicamentos como náuseas, enjoo, vômitos, diarreia, intestino preso, dificuldade para beber água, sensação de empachamento, gosto metálico na boca e até os famosos “arrotos com gosto de ovo” são algumas das queixas que escuto com frequência.
  • Além da necessidade de organização da rotina, sono, atividade física e outros hábitos importantes para o emagrecimento a longo prazo.
  • E tem também quem começa a perceber algo inesperado: a comida ocupava um espaço emocional muito maior do que imaginavam e mudam o comportamento com a comida transferindo para outra área como compras em excesso ou outro comportamento disfuncional.

É justamente por isso que o acompanhamento não pode se resumir a uma lista de alimentos permitidos e proibidos. Cada pessoa chega com desafios diferentes e o tratamento precisa acompanhar essa realidade.

Acompanhei uma paciente que estava encontrando grande dificuldade para atingir sua meta de hidratação devido ao enjoo. Utilizamos estratégias simples, como a adição de limão à água, o que aumentou sua aceitação e facilitou significativamente o consumo ao longo do dia.

E algumas descobrem que o problema nunca foi apenas a alimentação ou a fome.

Uma ideia muito comum entre quem procura Ozempic, Mounjaro ou outros medicamentos para emagrecer é pensar:

“Se eu estou sem fome, então quanto menos eu comer, melhor será o resultado.”

Mas o objetivo do tratamento não é apenas fazer você perder peso.

Meu papel como nutricionista não é simplesmente comemorar cada quilo perdido na balança. É acompanhar como o seu corpo está respondendo ao processo e garantir que o emagrecimento aconteça da forma mais saudável e sustentável possível.

Recentemente uma seguidora me procurou desesperadas com o efeito do antes e depois monjauro, no começo ela ficou extremamente feliz porque finalmente não sentia fome. O peso diminuiu, mas o cansaço aumentava e os sinais de perda de massa muscular começaram a aparecer. E quando o remédio foi retirado, no primeiro mês retornou 5kg e isso fez ela procurar meu acompanhamento para conseguir entender como emagrecer sem levar o corpo ao limite. 

Outro fenômeno que observo com frequência é o que costumo chamar de “efeito Cinderela”. Algo semelhante também pode ser observado em alguns pacientes nos primeiros anos após a cirurgia bariátrica. A pessoa pensa: “Já que estou emagrecendo com o remédio, posso comer qualquer coisa só que em pouca quantidade.” Como o peso continua diminuindo, muitas vezes a qualidade da alimentação deixa de ser uma preocupação.

Durante o acompanhamento, meu olhar está constantemente voltado para questões como ingestão adequada de nutrientes, preservação da massa muscular, sintomas gastrointestinais, hidratação, saciedade, energia, exames laboratoriais e sinais de possíveis deficiências nutricionais. Afinal, emagrecer não deveria significar deixar o corpo cada vez mais desnutrido, cansado ou dependente de estratégias extremas.

Mas existe uma segunda parte do tratamento que, na minha experiência, costuma ser ainda mais negligenciada do que a alimentação em si.

Porque perder peso não depende apenas do que acontece no prato.

Também depende da forma como você lida com o estresse, do papel que a comida exerce na sua rotina, da qualidade do seu sono, dos gatilhos que despertam exageros alimentares e das estratégias que você desenvolve para lidar com emoções difíceis sem precisar recorrer à comida o tempo todo.

É por isso que meu objetivo não é apenas ajudar você a emagrecer enquanto estiver usando a medicação. Meu objetivo é ajudar você a construir uma vida em que o emagrecimento possa ser sustentado a longo prazo, sem depender eternamente de motivação, força de vontade ou de estar vivendo um momento perfeito para conseguir cuidar de si mesma. E entender também qual corpo é possível de ser mantido com a sua genética, biotipo e estilo de vida. Se o corpo dos seus sonhos só é mantido com toda a energia da sua vida envolvida é bem impossível que a gente consiga fazer um milagre quando essas duas variáveis saem de cena. 

Acredito fielmente que essa classe de remédios não é modinha ou hype passageiros. A obesidade é um problema de saúde pública, complexo e multifatorial. E o tratamento prescrito por bons médicos que trabalham com emagrecimento pode ajudar muito e pelo amor de Deus cuidado com remédios falsificados e de manipulação duvidosa. A sua saúde precisa vir antes das seduções com economias perigosas.

E para evitar decepções e jogar dinheiro no lixo, nunca perca de mente que qualquer remédio vai atuar apenas sobre uma parte da equação. As outras partes continuam precisando de cuidado.  Quanto mais cedo elas forem trabalhadas, entendendo exatamente o quê te levou a acumular tanto peso e como lidar com a comida sem medos e nem tantas transferências emocionais, maiores são as chances de construir resultados que permaneçam mesmo quando o tratamento medicamentoso chegar ao fim.

Deixo claro também, que meu objetivo não é interferir na prescrição médica, mas contribuir para um raciocínio clínico e levar informações que ajudem o médico a definir  a dose compatível com a resposta clínica, nutricional e comportamental daquela pessoa. Felizmente, costumo encontrar uma excelente receptividade por parte dos médicos que acompanham meus pacientes. Esse trabalho integrado tende a melhorar tanto os resultados durante o tratamento quanto as chances de sucesso após a retirada da medicação.

E a propósito:

O que acontece quando você para o tratamento medicamentoso?

Essa talvez seja uma das maiores dúvidas de quem procura informações sobre essas medicações. Recebo muitas perguntas tanto de alunas nutricionistas quanto de pessoas que buscam usar o medicamento:

“Vou engordar depois que parar o Ozempic?”

“Como manter o peso depois do Mounjaro?”

“O efeito rebote do Ozempic é inevitável?”

E a resposta mais honesta que eu posso dar é: depende do que aconteceu durante o tratamento.

A interrupção do medicamento pode acontecer por vários motivos. Algumas pessoas atingem o peso desejado. Outras precisam realizar uma cirurgia, planejam uma gestação, engravidam ou precisam suspender temporariamente a medicação para exames e procedimentos. Tem também quem não consegue sustentar o custo da medicação e todos os cuidados envolvidos.

Independentemente do motivo, existe uma realidade que precisa ser compreendida.

Quando o medicamento sai de cena, o cérebro e o corpo voltam a funcionar sem aquele suporte farmacológico.

A fome, os sinais de saciedade e os pensamentos sobre comida deixam de receber a mesma influência que recebiam durante o tratamento. E alguns médicos da área defendem um tratamento intermitente já que a obesidade é uma doença crônica, outros defendem que seja considerado um reganho de até 30% na retirada. Não há um consenso. O que eu sempre alerto é que o remédio é um recurso e enquanto ele estiver fazendo efeito você pode usar isso como forma de potencializar outros hábitos e desenvolver novos recursos.

Se nenhuma habilidade nova foi construída durante o processo, a pessoa se vê novamente diante dos mesmos desafios que já existiam antes: a ansiedade, o estresse, a rotina desorganizada, a dificuldade de perceber saciedade, os episódios de exagero alimentar e a utilização da comida como principal forma de conforto.

E é exatamente nesse momento que muitas pessoas vivenciam aquilo que costuma ser chamado de “efeito rebote do Ozempic” ou “efeito rebote do Mounjaro”. Mas, na maioria das vezes, o problema não é o medicamento ter parado de funcionar. O problema é que o tratamento ficou restrito ao medicamento.

É nesse cenário que o famoso efeito sanfona costuma acontecer. O peso diminuiu sem que as causas que contribuíram para o ganho de peso fossem trabalhadas ao longo do caminho e você se acostumou com “um novo normal” com o efeito do remédio.

Por isso, quando alguém me pergunta quantos quilos é possível perder com Ozempic ou Mounjaro, minha preocupação vai além do número mostrado na balança.

Mais importante do que o peso que você perde durante o tratamento é a sua capacidade de manter esses resultados quando o tratamento terminar.

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