Tenho um diagnóstico psiquiátrico. O que isso interfere no meu emagrecimento?

Existe uma sensação que aparece com frequência quando atendo pessoas que convivem com ansiedade, TDAH, depressão, transtorno bipolar, autismo ou outras condições psiquiátricas.

A sensação de que estão participando de um jogo com regras diferentes.

Enquanto algumas pessoas conseguem planejar refeições, manter uma rotina relativamente estável e repetir comportamentos com consistência, elas sentem que estão gastando uma quantidade enorme de energia apenas para dar conta do básico.

E quando o assunto é alimentação, isso costuma gerar ainda mais sofrimento.

E não é raro ouvir frases como:

“Eu sei exatamente o que deveria fazer, mas não consigo colocar em prática.”

“Eu começo bem, mas não consigo manter.”

“Eu tenho a impressão de que todo mundo consegue, menos eu.”

“Será que meu problema é falta de disciplina?”

Se você chegou até aqui, existe uma boa chance de estar cansada de sentir que precisa fazer um esforço muito maior do que outras pessoas para conseguir coisas que parecem simples.

Pode ser que você saiba exatamente o que deveria fazer para emagrecer, mas encontre uma dificuldade enorme para transformar esse conhecimento em ação. Ou que consiga cuidar de todo mundo ao seu redor, mas tenha dificuldade para manter uma rotina de cuidados consigo mesma.

Durante muito tempo, esse tipo de dificuldade foi interpretado como preguiça, falta de foco ou falta de força de vontade. Mas a minha experiência clínica me mostrou algo diferente.

Emagrecer não depende apenas de saber o que comer.

Depende de conseguir planejar, organizar, tomar decisões, lidar com emoções difíceis, sustentar hábitos ao longo do tempo e tolerar desconfortos sem precisar buscar alívio imediato o tempo todo.

E quando existe um diagnóstico psiquiátrico, uma neurodivergência ou até mesmo determinados medicamentos envolvidos, todas essas tarefas podem se tornar mais complexas.

Com frequência, isso vem acompanhado de um medo silencioso.

O medo de nunca conseguir ter uma relação tranquila com a comida.

O medo de nunca conseguir emagrecer.

Ou até o medo de precisar escolher entre cuidar da saúde mental e cuidar do corpo. Se esse pensamento já passou pela sua cabeça, quero te dizer uma coisa importante. Na minha experiência, esse medo raramente se confirma.

  • Pessoas com TDAH emagrecem.
  • Pessoas com depressão emagrecem.
  • Pessoas autistas emagrecem.
  • Pessoas com transtorno bipolar emagrecem.

Mas geralmente não através das mesmas estratégias que funcionariam para alguém com uma realidade completamente diferente da delas. E é justamente aqui que muitos tratamentos fracassam. Não porque a pessoa não quer mudar ou não está se esforçando o bastante.

Mas porque está tentando seguir estratégias construídas para um cérebro que funciona de outra forma.

Quando essas estratégias não funcionam, a conclusão costuma ser injusta:

“Deve ter alguma coisa errada comigo.”

Quando, muitas vezes, o problema não está em você.

Outro ponto que merece atenção são os medicamentos.

Muitas pessoas convivem com um conflito silencioso.

Percebem melhora importante da ansiedade, do humor, da estabilidade emocional ou da qualidade de vida, mas começam a notar aumento da fome, alterações na saciedade ou ganho de peso.

E isso gera um medo compreensível.

O estigma de “remédios psiquiátricos que engordam” ou “vou engordar por causa do remédio acaba levando ao questionamento o tratamento. Não é raro ver pessoas abandonando a medicação por conta própria e voltando a tomar quando as crises e os sintomas começam a aumentar.

Na maior parte das vezes, não é preciso escolher entre uma coisa e outra. Precisamos entender como aquele diagnóstico, aqueles sintomas e aquela medicação estão influenciando o seu comportamento alimentar para que possamos construir estratégias compatíveis com a sua realidade.

Porque o objetivo não é fazer você funcionar como alguém que não tem os mesmos desafios.

O objetivo é construir um caminho que funcione para você.

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