
Se você observou a imagem acima, talvez tenha percebido uma coisa importante.
Quando estamos tentando emagrecer, quase sempre olhamos para aquilo que conseguimos enxergar: o pão, o chocolate, o delivery, a fome, a falta de disciplina ou o número que aparece na balança.
E é quando eu recebo as perguntas sobre:
- “O pão realmente engorda?”
- “Devo cortar de vez o açúcar?”
- “Qual a melhor dieta para emagrecer?”
Mas e se essas coisas forem apenas a ponta do iceberg?
E se ao invés de tentar descobrir qual alimento está atrapalhando o emagrecimento, ou se convencer de que o problema é porque você gosta demais de comer, você se fizer uma outra pergunta: o que está acontecendo por trás desse comportamento?
Eu entendo perfeitamente por que você pode ter chegado a essas conclusões. Quando estamos convivendo com um problema há muito tempo, é natural prestar atenção apenas naquilo que conseguimos enxergar.
- Se toda vez que você exagera existe um chocolate envolvido, parece lógico concluir que o problema é o chocolate.
- Se os exageros acontecem principalmente à noite, parece lógico acreditar que o problema é o jantar.
- Se você ganhou peso nos últimos anos, parece lógico pensar que o problema é simplesmente estar comendo demais.
O que aprendi atendendo pacientes ao longo dos anos é que aquilo que aparece na superfície raramente conta a história inteira.
Imagine um iceberg.
A parte que aparece acima da água é pequena. Mas ela só existe porque existe uma estrutura muito maior escondida abaixo da superfície. Com a alimentação costuma acontecer algo parecido. A comida é a parte visível da história. É aquilo que conseguimos enxergar: o pão, o chocolate, o delivery, os exageros, a dificuldade de seguir uma dieta ou o número que aparece na balança.
Mas quase sempre existe algo acontecendo por baixo de tudo isso.
E é justamente essa parte que costuma passar despercebida.
O começo do tratamento não é pedir para você reduzir os excessos…
Quando uma paciente me procura, raramente começo perguntando apenas o que ela come. Eu quero entender o que estava acontecendo na vida dela quando ganhou peso. Quero entender o que mudou, o que começou a ficar difícil, quais responsabilidades surgiram, quais dores apareceram e quais recursos ela tinha disponíveis naquele momento.
Porque, muitas vezes, o ganho de peso começou junto com um período de muito estresse. Com uma mudança de trabalho. Com uma separação. Com a maternidade. Com noites mal dormidas. Com um quadro de ansiedade. Ou simplesmente com uma fase tão sobrecarregada que cuidar de si mesma deixou de ser prioridade.
É justamente nesse ponto que algo importante acontece. A comida começa a assumir funções que vão muito além da nutrição. Ela ajuda a relaxar depois de um dia difícil. Ajuda a criar uma pausa em uma rotina exaustiva. Ajuda a aliviar desconfortos emocionais. Ajuda a encontrar prazer quando a vida parece pesada demais. E isso não significa que exista algo errado com você.
Na verdade, seria estranho se a comida não tivesse nenhum significado emocional. Nós comemoramos com comida. Criamos memórias através dela. Nos conectamos com outras pessoas através dela. A questão não é utilizar a comida em momentos difíceis. A questão é quando ela se torna o único recurso disponível.
Recentemente, uma paciente me contou que estava dirigindo quando o carro quebrou em uma estrada. Ela estava sozinha, assustada, sem saber quanto tempo demoraria para receber ajuda. Enquanto esperava, entrou em uma loja de conveniência e comprou um chocolate. Quando terminou de me contar a história, parecia esperar uma bronca. Como se eu fosse dizer que faltou controle ou que ela deveria ter resistido.

Mas minha reação foi outra.
Eu mostrei que deveríamos agradecer por existir uma loja de conveniência. E agradecer por existir um chocolate para dar um conforto naquela situação chata.
Porque, naquele momento, aquele chocolate estava cumprindo uma função. Ele trouxe conforto em uma situação difícil. E não existe nada de errado nisso.
O problema não é o chocolate da estrada.
O problema seria precisar do chocolate todos os dias para lidar com qualquer desconforto da vida.
Essa diferença parece pequena, mas muda completamente a forma como entendemos o comportamento alimentar.
Quando enxergamos apenas a comida, passamos a lutar contra o sintoma.
Só quando é possível olhar para aquilo que está por trás dela, finalmente conseguimos compreender a causa.
Como enxergar além da ponta do iceberg?
Volte por um instante para a história da paciente que ficou parada na estrada.
Se olhássemos apenas para a superfície, a conclusão seria simples: ela comeu um chocolate. Mas, quando observamos o contexto, percebemos que aquela cena era muito maior do que isso. Ela estava sozinha, assustada e sem saber quanto tempo demoraria para receber ajuda.
Naquele momento, o chocolate não era apenas um alimento. Ele era uma pausa. Um conforto. Uma forma de acolhimento em uma situação difícil.
E é justamente aí que começamos a enxergar o que está escondido abaixo do iceberg.
Porque, muitas vezes, aquilo que parece um problema alimentar está tentando resolver outra necessidade. Nem sempre é fome. Às vezes é cansaço. Às vezes é estresse. Às vezes é solidão. Às vezes é a necessidade de encontrar um momento de prazer em uma rotina que anda pesada demais.
Pense, por exemplo, em alguém que passa o dia inteiro resolvendo problemas, trabalhando, cuidando da família e tentando dar conta de tudo. Quando finalmente chega em casa à noite, abre um pacote de biscoitos e sente que não consegue parar de comer.
Se olharmos apenas para a comida, poderíamos concluir que faltou controle. Mas talvez aquela pessoa estivesse procurando algo muito maior do que um biscoito. Talvez estivesse procurando descanso. Talvez estivesse procurando conforto. Talvez estivesse procurando uma pausa que não encontrou em nenhum outro momento do dia.
Percebe como a conversa muda?
Porque, quando olhamos apenas para a comida, ficamos presos à pergunta: “O que eu deveria comer?”
Mas quando começamos a olhar para o contexto, surgem perguntas muito mais úteis.
- O que está acontecendo na minha vida quando essa vontade aparece?
- O que estou tentando aliviar?
- O que estou tentando compensar?
- O que a comida está me ajudando a sentir (ou a não sentir)?
E são justamente essas respostas que, muitas vezes, abrem caminhos que nenhuma dieta conseguiu abrir.
Entendi, Jéssica, mas e ai, o pão engorda ou não?
Se você chegou até aqui, talvez esteja isso e eu não vou fugir pela tangente, hehe.
A resposta provavelmente não é tão emocionante quanto você esperava.
O pão, sozinho, não explica por que alguém desenvolveu excesso de peso.
Afinal, existem milhões de pessoas que comem pão todos os dias e não estão acima do peso. Da mesma forma, existem pessoas que retiraram completamente o pão da alimentação e continuam enfrentando dificuldades para emagrecer.
Isso não significa que a alimentação não importa.
Importa muito.
Existem pessoas que se sentem melhor reduzindo determinados alimentos. Outras apresentam desconfortos digestivos, excesso de gases, estufamento ou sintomas que merecem investigação. Em alguns casos, pode existir uma intolerância alimentar. Em outros, condições como doença celíaca ou sensibilidades específicas precisam ser avaliadas adequadamente.
Mas isso é diferente de transformar um único alimento no grande responsável por todos os problemas.
É justamente por isso que seu trabalho não termina quando você recebe um plano alimentar.
A alimentação importa. Os nutrientes importam. As estratégias nutricionais importam. Mas, se quisermos construir mudanças duradouras, também precisamos olhar para aquilo que a comida está representando.
Porque, na maior parte das vezes, você não está lutando apenas contra um pedaço de pão, um chocolate ou uma sobremesa.
Você está tentando resolver uma vida inteira usando apenas força de vontade.
E enquanto o foco continuar sendo apenas cortar alimentos, controlar impulsos ou tentar ser mais disciplinada, existe uma grande chance de que você continue se deparando com as mesmas dificuldades, ainda que elas mudem de forma ao longo do tempo.
Você pode até conseguir retirar o chocolate por algumas semanas, seguir uma dieta por alguns meses ou perder peso rapidamente em determinado momento da vida.
Mas, se aquilo que faz a comida ocupar um espaço tão importante na sua rotina continuar exatamente igual, existe uma boa chance de que o problema reapareça mais cedo ou mais tarde. Às vezes na forma de exageros alimentares. Outras vezes como uma sensação constante de perda de controle, uma vontade de comer que parece surgir do nada ou simplesmente o cansaço de precisar estar sempre se policiando.
É por isso que, no acompanhamento, eu não procuro entender apenas o que você come. Eu procuro entender o que está acontecendo por trás daquilo que você come.
Quais situações costumam aumentar sua vontade de comer. Quais emoções aparecem antes dos exageros. O que a comida está tentando resolver naquele momento. E quais recursos ainda precisam ser construídos para que ela não precise carregar sozinha tantas funções na sua vida.
Porque, quando enxergamos apenas a ponta do iceberg, as mudanças costumam ser temporárias. Mas quando começamos a compreender aquilo que sustenta determinado comportamento, finalmente conseguimos construir resultados que não dependem de viver em guerra com a comida.
E, na minha experiência, é justamente nesse processo que muitas pessoas chegam a um lugar que talvez nunca tenham experimentado antes: uma relação mais leve com a alimentação, com o próprio corpo e com o emagrecimento.